quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Central do Brasil, de Walter Sales (1998)

Assisti-o nesse sábado bem-acompanhada, quer dizer, reassisti. Lembrei-me de tê-lo visto antes e ficar refletindo sobre a solidão e a convivência. O que ela nos leva a fazer ou a esquecer para não a enfrentarmos. Pensei que o perdão é, antes de tudo, um ato de sobrevivência - porque precisamos de companhia.

É a história de duas pessoas - Dora e Josué - em todas as suas carências e dores - aparando as arestas da personalidade forte para conviver. Na primeira personagem, pude perceber a inculcação de frustração e de desgosto. Seu ofício, escrever cartas num lugar desagradável, sua solidão, falta de marido e filhos, pouco dinheiro, a tornou uma mulher amarga, com tendência a tirar vantagem e pouco se importar com o outro. Ela decide os destinos das cartas que escreve, impondo sua visão limitada por seus preconceitos - fazendo do seu trabalho também uma forma de trapaça.

No segundo personagem, Josué, está estampado a necessidade. Sua mãe, sem instrução, sem posses, deixou-o sem defesas. Tem um temperamento áspero e desconfiado. Não sabe como demonstrar suas fraquezas, não sabe como lidar com a ajuda de outrem.

Dora não é boa, e Josué também não. Não são personagens monocromáticos, fácil de simpatizar. Eles tem em comum a carência. Estando juntos, conseguem abastecer essa privação. Aprendem a se gostar. Destaque para a cena em que Dora fica abatida porque o motorista que cortejou a abandona. Josué, demonstrando sensibilidade inédita, diz que ela está mais bonita de batom e que o homem era um frouxo. Eles conseguem se redimir pelas falhas, Dora principalmente, o que é um aprendizado que nós, telespectadores, acompanhamos.

Questionei-me por que Dora parte e deixa Josué com seus irmãos. Não era aquele o lugar dela com sua família encontrada - o menino? Ou o que cada um tinha que fazer pelo outro já foi feito, e eles precisam seguir a vida? E a saudade? Ela será apaziguada pela foto em frente ao santo, pelas lembranças? Quando chega esse momento da convivência em que é preciso seguir seu próprio rumo e deixar o outro?

As imagens me levaram para o interior das lembranças. A estrutura simples das casas sertanejas, as imagens de santo penduradas (Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Sagrado Coração de Jesus), a foto-pintura do casal e a novena, trouxeram -me a casa de minha avó, os retratos de minha mãe e meu tempo de legionária. O sertão seco me vem como parte de mim, talvez em virtude de minha avó materna e minha mãe que tiveram parte significativa de suas vidas marcada pela terra seca e a luz alucinante.

La Môme (Piaf- Um Hino ao Amor), de Olivier Dahan (2007)

Fiquei antes de tudo triste. O filme a mostra sempre angustiada; a vida como um tormento constante. A história é contada confusamente, misturam-se os anos, a juventude e a velhice.

É um retrato lamentável do fim da vida. Talvez da vida mesmo, que é suscetível a todo tipo de desgraças. Sua música, em que se sobressai sua voz característica, me pareceu, no mínimo, digna de ser ouvida, apesar de inebriantemente homogênea.

Destaque: a cena de morte do seu amado Marcel - o puro descontrole que a acomete, o desmaio no palco enquanto já consagrada cantora, a descoberta e interpretação de "non, je ne regrette rien", a entrevista com a jornalista na praia em que seu conselho para as mulheres é simples e forte: ‘aimer’, e sua morte permeada por um flashback de sua vida.

Interessante pensar onde se pode chegar apesar das condições adversas. Édith se tornou uma personalidade francesa representativa e iniciou cantando nas ruas para comer. Viu sua filha morrer pela escassez.

Fica a letra de ‘Non, je ne regrette rien’. Não sei se chegarei ao fim da vida honestamente não arrependida de nada. Já me arrependo de coisas a essa idade, mas também penso que isso não me serve de nada. Parece ser uma boa forma de lidar com o fim:

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié,
Je me fous du passé!

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu,
Mes chagrins, mes plaisirs,
Je n'ai plus besoin d'eux!

Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro...

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies,
Aujourd'hui, ça commence avec toi!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Kramer vs. Kramer, de Robert Benton (1979)

Não apreciei muito esse filme. Talvez tenha sido meu estado semi-faminto, semi-exausto. Primeira vez que vi Dustin Hoffman jovem; acredito que esse seja mesmo um dos mais significantes comentários a se fazer. Porque a velha história de um pai que prioriza o trabalho em vez da família e depois aprende que estava errado, que na verdade o mais importante é priorizar quem se ama está super desgastada.

Identifiquei-me com sua inaptidão inicial em conciliar trabalho e cuidado com o filho. Também sinto que tenho sido pouco hábil em juntar obrigações com prazeres. E tenho deixado minha vida acadêmica, mais uma vez, em segundo plano. O filme também aponta que uma relação bem-sucedida se faz em insistir no diálogo, apesar da falta de paciência com que se costuma ter para com familiares. Nesse ponto, Kramer se vai descobrindo um bom pai, ao ouvir e se envolver com a vida de seu filho.

Estar informado sobre a vida das pessoas que moram conosco é uma tarefa árdua. O cotidiano vai tornando os contatos cada vez mais mecânicos, previsíveis e superficiais. Foi justamente isso que abalou a relação com sua esposa, que a fez se sentir só e perdida, sem papel naquele espaço. Isso eu acho que entendo, penso ter visto algumas vezes: mulheres que se moldaram as vidas de seus maridos, em relações de pouco diálogo e compreensão.

Um filme previsível, enfim. O roteiro bem-acertado, no entanto, com a atuação excepcional, me permite dizer que é um bom filme. Talvez não traga nenhuma mensagem. Mas prende a atenção.

domingo, 20 de dezembro de 2009

The Boy in the Stripped Pyjamas (O Menino do Pijama Listrado), de Mark Herman (2008)

Eu não julgo os nazistas. Não acho que se deva ser muito desumano e cruel para matar do modo como fizeram. Não vou muito longe, basta falar do que vejo, do que compactuo. Eu vejo fome e miséria na rua diariamente, eu vejo a humilhação de ser invisível e indesejado. Todos os dias. Há de certo modo alguma engrenagem que compactuamos que nos levam a aceitar os nivelamentos de valor de vida.

Não sei até que ponto não sabemos, ou preferimos continuar com a ilusão de conforto e segurança. Não sabemos da fome na calçada, do frio da rua, dos meninos de rua, dos prostituídos, dos animais em matadouros. E se sabemos, o que fazer contra um sistema tão bem articulado? Como se contrapor? Por quê? Não sou eu mesmo...

Não sei até que ponto os alemães não sabiam; não sei até que ponto demonizá-los vai abafar a revolta que se sente diante do holocausto. Fico calada, porque eu sou também uma alemã da década de 30 que também se prende a sua ignorância. Viva a ignorância!

Há coisas grandes. Nesta vida, há certas coisas que são de extrema importância, e dificilmente percebemos. Toda e qualquer nível de brutalidade parece tão estúpido diante delas. Estúpido. Há tanta desgraças, tanta fraqueza, tantos problemas... que todo e qualquer egoísmo parece, no mínimo, estúpido.

As pessoas são o que há de melhor. O filme nos mostra tão claramente que violência e intolerância são sempre tolas. Destaque para o momento em que o pequeno Bruno corre pela primeira vez pelo campo, livre, explorador, e para a música que o acompanha.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Slumdog Millionaire (Quem quer ser um milionário), de Danny Boyle (2008)

Eu gostei. Porque penso que tudo que é produzido tem que necessariamente nos colocar para refletir sobre o mundo de hoje. Seja sobre a extrema desigualdade, a pobreza, a violência, as guerras, isso nos leva a sair um pouco do pequeno e mesquinho espaço do umbigo e ser mais sensato.

A vida dura dos dois irmãos Jamal e Salin me conduziu aos meninos mendicantes de Fortaleza que eu estou vendo crescer. O que fazer? O que esses meninos passam diariamente para se alimentar? A todo tipo de humilhação e invisibilidade social estão sujeitos em tão tenra idade... E a violência acaba se tornando uma resposta necessária ao meio adverso...

Chamou-se especial atenção o uso que um criminoso indiano faz das crianças mendigas, ao cegá-las para aumentar a esmola. E depois quando aparece uma dessas crianças, cantando, cega, sua conversa com Jamal sobre sua pouca sorte, com seus olhos brancos a se revirarem, toca.

As imagens da infância sofrida poderia ter se passado no Brasil, em Fortaleza. Fica tão simples de entender a relação entre necessidade e ‘crime’ nelas. São cenas de um colorido e brilho contagiante, que me provocaram: enquanto enfrento minhas ralas dificuldades me lamentando, cedo às minhas futilidades e dissipo energia em aparências, há crianças por aí sem nenhum amparo.

Tenho que fazer algo por alguém para me salvar. Há esperança para nós, apesar de tudo. Esta é a mensagem do filme, que enfatiza em seu final que é possível reconstruir tudo com o amor, no caso a redenção de Jamal e Latika. O irmão, Salin, também se salva ao considerar o outro e permitir que Latika fuja, custando sua vida, e encontre-se com seu amado.

Também é preciso que se mencione o jogo “quem quer ser um milionário”, em que o favelado (slumdog) e entregador de chá contraria o que se espera de alguém em sua condição e o vence. O que sabe um favelado? O que nós sabemos?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Yes man (Sim senhor), de Peyton Reed (2008)

Um filme muito clichê, com direito a separação do casal, corrida homérica de encontro e final feliz. Mas tem algo de bom, que é sobre se jogar, sobre dizer sim para as coisas, embora pareçam totalmente fora do seu contexto de personalidade.

Sem contar que demonstra uma visão positiva da vida, como se esta fosse “um parque de diversões”. Eu gosto disso, embora prefira sempre refletir com responsabilidade e sobriedade. sobre as coisas. Há cenas realmente engraçadas, irônicas, como aquela em que ele ajude o mendigo e se dá mal depois.

No fim, um filme para se ver uma vez só na vida. E já é muito!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Saneamento básico, de Jorge Furtado (2007)

O roteiro, a atuação, o modo de filmagem, a trilha sonora, tudo muito singelo. É uma quebra com a previsibilidade das produções com atores globais, em que o mundo urbano, fútil, consumista, está sempre tão forte. A linguagem é bem mais simples, dessa vez se destaca o modo de viver interiorano, de classe média, de menos acesso a bens culturais.

A única cena que achei modestamente engraçada e cativante foi a que a terceira idade do filme, no caso o personagem de Paulo José com o de Tonico Pereira comparam os aparelhos de som de seus carros, com destaque para o momento em que os dois param atentamente para ouvir uma velha música. É tocante, é simples.

Gostei, em especial, da atuação do Wagner Moura. Encarou bem a aura da simplicidade e da tranqüilidade. As complicações a respeito da falta de informação quando da produção do vídeo me levaram a pensar em qual época o filme se passa em que não há um computador disponível. Na verdade, a ignorância é geral. São pessoas comuns, de ocupação manual. Há alusões à educação de qualidade duvidosa das faculdades pequenas (Mariana fez faculdade de administração, e Fabrício de turismo, e são zoados por isso). É interessante ver os personagens fazendo seus papéis simplórios para o vídeo: atores consagrados se comportando como atores ruins.

Fica evidente à crítica a politicagem, no caso do prefeito que só vem para fazer propaganda política e pouco se envolve com os problemas comunitários. O vídeo feito dentro do filme trata a questão ambiental muito ralamente, apelando pro ‘proteja a natureza’ em uma cena que mistura a beleza da natureza com a da Camila Pitanga, em uma fusão confusa e meio non-sense.

O enredo trata, grosso modo, de pessoas mal-preparadas e criativas, que realizam um filme no mínimo ruim e com uma história fraca, como não poderia deixar de ser, mas que por terem conseguido, consegue finalizar razoavelmente, aceitavelmente, tal como este texto...