sábado, 8 de novembro de 2008

Germinal - Claude Berri (1993)

Na mina Voreux, Étienne Lantier está em busca de emprego e aborda Bonnemort sobre a existência de vagas. O senhor é apelidado de boa morte por ter escapado de várias situações de extremo perigo. É membro da família na qual a narrativa irá se centrar e encontra-se com a saúde debilitada, por ter dedicado sua vida à exaustiva tarefa de extração de carvão.

Somos informados, com essa conversa, que as fábricas na região se multiplicam, enquanto fecham as oficinas. Os mineradores são continuadamente ameaçados pelo perigo de desemprego e de redução de salário e desconhecem o proprietário do lugar onde trabalham, o que certamente dificulta a articulação dos mesmos na luta organizada.

Ainda escuro, Catherine prepara-se para o dia de ofício. Ela é uma dos sete filhos de Toussaint e Maheude e, assim como seus irmãos, trabalha na mina Voreux para contribuir em casa. O café da manhã deles é composto de sobras da refeição anterior. A preocupação dos genitores se faz presente em seu diálogo: as dívidas se amontoam; o dinheiro proveniente dos salários é insuficiente; é preciso comer. “Não preciso ver a cor dos meus pensamentos”, diz a mãe Maheude, ao se apagarem as velas. O que angustia, assim como a vários trabalhadores, é a sobrevivência.

Em Voreux, quando a família Maheu se prepara para o início das atividades, o falecimento de uma operária é comunicado. É a necessidade de substituí-la que movimenta a cena, e isso é feito com a contratação de Étienne. Mulheres e homens enfrentam as mesmas condições de trabalho: insegurança, exaustão física, higiene precária, falta de proteção à saúde. Têm uma cota de vagonetes a cumprir e, por isso, não podem desperdiçar tempo fazendo os escoramentos das paredes rachadas. Há, conseqüentemente, o risco constante de desabamento.

Catherine e Étienne compartilham um almoço. É um entre raros momentos descontraídos do longa-metragem, embora ainda nos confira uma forte sensação de miséria. Em contraste, conhecemos o início do dia da família burguesa. O café da manhã é variado, apetitoso. Não se precisa acordar cedo; as pessoas sorriem. As crianças se dedicam ao estudo da música. Esse clima ameno só é interrompido com a solicitação de ajuda de Maheude, acompanhada de dois filhos. Fica marcado, a partir de então, a hipocrisia e o egocentrismo dos abastados ao subentendidamente culpá-la por sua situação, evidenciando a importância de se poupar, não desperdiçar com bebida e controlar a natalidade. No fim, a jovem Cécile oferece um pedaço de bolo que inegavelmente nos remete ao mesmo que se faz com um cachorro.

Também na mercearia, a mãe nada consegue, mesmo apelando à misericórdia do proprietário. Este sugere que Maheude prostitua a filha para obter seu objetivo. A prostituição feminina é bastante evidenciada nessa obra; é o que observamos no relacionamento que Catherine desenvolve com Chaval, que claramente só acontece devido à precisão desta.

O diretor visita à mina. Maheu é condenado por mau escoramento e é comunicado da decisão da companhia de diminuir o preço do valor recebido por vagonete e pagar o escoramento à parte. O argumento para isso é que a empresa que perde com os desabamentos, por ter que pagar pensões. Toussaint, absurdamente, é multado por escoramento ruim. A revolta entre os trabalhadores se mostra crescente.

No bar, confrontam-se visões anarquistas e marxistas do conflito patrão-empregado. Étienne declara ser crente na força do operário unido como fonte de mudanças. Propõe-se a criação de uma caixa de resistência – uma reserva monetária – para que a paralisação possa ocorrer, caso a companhia insista na nova proposta de pagamento.

Ocorre uma festa. Nela, Étienne convence seus companheiros a contribuir com a caixa. Também se consolida o casamento do irmão de Catherine, Zacharie. Interessante perceber que a união matrimonial entre os dois membros da classe afortunada – Cécile e Négrel – é totalmente distinta desta, uma vez que é corrompida pelo interesse, a falácia, a traição. O dinheiro degenera as relações, não garante a felicidade.

Desaba-se uma parte da mina. Um filho de Maheu é ferido. Num momento de profundo pesar do pai, chega o diretor, aos gritos, afirmando que a companhia quem realmente perde com os acidentes. Toussaint Maheu está completamente decidido pela greve. No dia do pagamento, acompanhando a insatisfação dos companheiros, ele e Étienne os convocam a uma paralisação.

No outro dia, no almoço, os proprietários da mina analisam a fatalidade da revolta operária: a América cessou o pedido de ferro, o que prejudicou as fábricas. Estas passaram a comprar menos carvão. A concorrência obrigou-os a baixar os preços, o que motivou a um aumento de produção, como também a abaixar os custos (os salários). Os trabalhadores sofrem, já que a companhia não diminui seu lucro.

Uma delegação do comando de greve é enviada para negociar. O que recebem como resposta é uma repreensão por se envolverem politicamente e um pedido para que entendam a situação difícil que a empresa enfrenta. A frase de Étienne pertinentemente soa: “Querem que aceitemos a situação e comem brioches todo dia. Algum dia, haverá pão para todos”.

Um mês depois, nenhuma conquista é feita. Na mina Jean-Bart, Catherine e Chaval ainda trabalham. Na assembléia, os mineiros da Voreux decidem-se pela intervenção onde o trabalho permanece.

Chaval organiza um motim na Jean-Bart; abandona, contudo, o interesse comum ao ser seduzido por uma proposta de promoção e retoma as atividades. Acontece, então, uma manifestação ativa dos mineradores que buscam o fortalecimento do movimento grevista. Depredam, pois, a mina e agridem os operários que permaneceram em ofício. Tomados pela energia, atacam a mercearia, matando violentamente o Maigrat, seu proprietário. A chegada da polícia dissipa a revolta. Étienne torna-se fugitivo.

A greve se alonga. Uma filha da família Maheu morre, a fome é insustentável. A burguesia se mostra irredutível e disposta a trazer estrangeiros para ocupar o lugar dos revoltosos. No dia marcado para isso ocorrer, os grevistas, numa demonstração pura de coragem e determinação, enfrentam o exército que fazia a proteção da mina. Toussaint Maheu é mortalmente atingido. Após essa tragédia, a paralisação enfraquece substancialmente.

Catherine, depois de ser expulsa da casa de Chaval, por ter protegido Étienne, se disponibiliza a voltar com seu emprego. E o faz, apesar de ser energicamente repreendida por sua mãe, acompanhada por Étienne. Na mina, uma inundação provocada ameaça a vida dos operários. Nesse contexto desesperador, Chaval e Étienne se agridem pelo amor de Catherine, o que culmina na morte do primeiro. A desesperança de sobreviver acaba unindo Catherine e Étienne, que confessam o que sentem.

Tragicamente, a família Maheu perde mais dois membros: Catherine, que não resiste à noite na mina, e Zacharie, que é carbonizado em um acidente. A caridade tardia da família burguesa é recebida com o assassinato de Cécile por Bonnemort, que enlouqueceu. Étienne sobrevive e resolve mudar-se. Não há ressentimentos ou rancores no seu peito, ele sentia que amadurecia sua compreensão do mundo: “Um exército negro, vingador, que germinava lentamente, crescendo para as colheitas do século futuro, e cuja germinação logo faria rebentar a Terra”.

ESTÉTICA

Cores:
O ambiente compartilhado pelos mineradores se apresenta, no geral, tomado pela escuridão, o que assegura um mal-estar ao espectador, assim como uma sensação de falta de higiene e miséria. A exceção ocorre em dois momentos: na manifestação do movimento grevista e na festa. Nesta última, fica bem perceptível a limpeza do vestuário e do corpo dos personagens.

Quando se trata da classe burguesa, o ambiente é iluminado, marcado por tons fortes. O jogo de cores é uma componente importante da obra, já que serve satisfatoriamente para evidenciar a discrepância de condições dos proprietários, luxo e opulência, e a dos trabalhadores, pobreza e exploração.

Figurino:
A roupa de Étienne tem tom vivo, diferentemente do resto dos operários, que apresentam vestuário em cores neutras, desgastadas. Isso se deve ao papel que ele exerce de instigar e movimentar seus companheiros. Também a classe abastada tem roupas bem-iluminadas, consideravelmente detalhadas e pomposas.

Trilha sonora:
A música acompanha momentos críticos e marcantes do filme. Os encontros de Étienne e Catherine são sempre assinalados com uma melodia tênue, melancólica, fortalecendo a existência de um sentimento oculto entre eles.

Na passeata, em que os mineiros se manifestam energicamente em favor de sua causa, a música provoca mais euforia e animação à cena. Na festa dos mineradores também é utilizada um ritmo forte e descontraído.

sábado, 27 de setembro de 2008

2046, Wong Kar-wai (2004)

Justamente por ter chegado atrasada a sua exibição e ter permitido conversas constantes com um amigo, posso dizer que pouco acompanhei o enredo e, portanto, pouco o entendi.

Inegável me foi, no entanto, a beleza da fotografia, assim como o estranhamento, por se tratar de um filme com um desenrolar completamente distinto dos padrões estadunidenses. O contar da história não segue uma ordem linear, como também é mais lenta do que o usual. Os personagens travam diálogos bem conectados, o que me fez gostar ainda mais do longa-metragem.

O tema, enfim, é amor. Esse tema universal, repetitivo, incompreendido, está nas imagens e nas bocas dos personagens, permitindo devaneios de identificação ou de reprovação. A trilha sonora também me pareceu boa. A música usada para dramatizar ficou bem clara no decorrer do filme por sua repetição constante. O que acabou sendo a razão de piadinhas entre meu amigo e eu, mais isso já é outra história...

sábado, 20 de setembro de 2008

Poder além da vida - Peaceful warrior - Victor Salva (2006)

Muito há o que se pensar sobre esse filme, pois este é um daqueles que pretendem justamente isso: fazer o espectador parar e refletir. No começo, fiquei pouca convencida de que este me traria algo de espetacular, o que foi se confirmando com o decorrer do filme. No fim, não achei a mensagem nada demais. É algo que já sabia, mas não com a sensibilidade transmitida pelas cenas. Talvez, por isso, tenha servido. Foi-me apresentada uma forma tangível de usar isso.

O enredo é sobre um rapaz que persegue seu sonho: tornar-se medalhista olímpico na ginástica. Embora sua vida esteja bem-programada, indo no caminho certo, ele se percebe perdido, sentindo que falta algo que desconhece. Envolve-se, então, com um senhor, que parece saber o que fazer sempre: na hora certa, no lugar certo. O velho provoca-o, mostrando ser claramente alguém que segue uma lógica distinta, alguém que inventou sua própria maneira de entender o mundo.

“Encontre suas próprias respostas, pare de seguir os que os outros dizem para você fazer”, diz ele, oferecendo uma primeira dica para se descobrir o que realmente significa viver. Esvaziar a mente, tirar o “lixo” fora, expelir aqueles pensamentos que nos impedem de viver o instante, de sentir o que está acontecendo no presente, é o que sugere o velho, pacientemente, esperando a gradual transformação do garoto num guerreiro.

Das partes que mais me encantaram, fica a que o velho, encarnando bem estereotipicamente o perfil de sábio, fala que ser guerreiro não significa ser perfeito, ter sempre vitórias e ser invulnerável. Pelo contrário, significa reconhecer ser fraco: a completa vulnerabilidade. É justamente ao lidar com essa verdade que se encontra a verdadeira coragem.

O senhor insiste inúmeras vezes na distinção entre conhecimento e sabedoria, expondo que a última está totalmente associada à ação. Desse modo, perante um assalto, “age” com compreensão em relação aos assaltantes, afinal, como ele bem sabe “aqueles que são difíceis de amar, são os que mais necessitam”.

Ele oferece também três direcionamentos de consciência para o jovem, nomeadas de: paradoxo - não perca tempo tentando entender as coisas, a vida é um mistério; senso de humor - aprenda a rir, principalmente de si mesmo, saber se divertir é uma boa proteção contra os problemas; e mudança - saber que nada permanece o mesmo.

Como eu disse antes, o filme é permeado de clichês, muito pretensioso com suas filosofices e não traz nada de completamente novo. Por tudo isso, pode ser impressionante que tenha me feito diferente. Pode ser que seja a composição de algumas imagens, exibidas em câmara lenta, ou porque a gente costuma deixar de lado o que, no fundo, sabemos. Há uma necessidade de nos lembrarmos constantemente da importância de se viver o momento, de jogar fora tudo os devaneios de futuro e passado, de não se mover buscando unicamente resultado, mas compreendendo que o que traz felicidade é o processo, a jornada, e não o fim, até porque este é imprevisível, fora de nosso controle. Não temos controle sobre a vida, ponto. Termino o texto, com o mesmo fim de Victor Salva:

Onde você está?

- Aqui.

Que horas são?

- Agora.

O que você é?

- Este momento.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O incrível Hulk - Louis Leterrier (2008)

Como eu desconheço os quadrinhos de Hulk, devo confessar que o assisti esperando uma diversão barata apenas proporcionada pela ação com grandes efeitos especiais e piadinhas de simples entendimento. Desse modo, o longa-metragem me pareceu útil. E até mais, me aflorou a imaginação ao me confrontar com situações completamente inverossímeis do enredo.

À lá filmes hollywoodianos, os personagens são movidos por causas ingênuas e infundadas, como é o caso do soldado, que resolve se transformar biogeneticamente num novo hulk. Outro exemplo é o professor de uma universidade americana, que, inicialmente, se mostra disposto ajudar o herói Bruce com os efeitos deletérios de sua mutação genética, e depois, contraditoriamente, muito naturalmente parece fazer o tipo “cientista maluco”, não vendo nenhum problema ético com manipulação genética e criando um monstro ainda pior.

Sente-se certa identificação com o protagonista, ao percebê-lo na condição solitária por ter que carregar um fardo. Nota-se a fórmula: explorando os sentimentos de heróis, propagando uma universalidade humana, que se garante o sucesso de filmes como este, tão claramente marcado pela lógica e cultura estadunidenses.

O português e modo de ser brasileiros foram pessimamente retratados no longa, como se é de esperar, na verdade: blockbusters têm pouquíssimo fundamento histórico e antropológico, e não há nenhum interesse que seja diferente. O filme não vem dar uma aula de história, mas vem despertar emoções, tão diretamente ligados ao nosso jeito ocidental de ser.

O fim sugere a possibilidade de a continuação trazer uma conexão com Homem de Ferro. Quem sabe o próximo me permita rápidos sorrisos, causados pelo que há de tolo e despreocupado em mim.

domingo, 7 de setembro de 2008

K-Pax, o caminho da luz - Iain Softley (2001)

Refletir sobre loucura, sobre nossa condição de terráqueo, para isso, avalio, me serviu esse filme. Prot que chega ao enredo através de uma viagem por feixe de luz, com uma velocidade ainda maior que esta, fala da vida no seu planeta k-Pax e, como se pode esperar, é interpretado como louco.

As sessões de tratamento dele com o psicanalista sucedem-se, e a partir delas, passamos a conhecer mais de nós mesmos (seres da Terra) por essa oposição com a realidade de K-Paz. Este planeta está num nível evolutivo superior, onde os seres parecem já ter se desligado de causas efêmeras, que marca a vida num planeta ‘primitivo’ como a Terra.

Lá, não existem famílias, as pessoas se desprendem de seus pais e são criadas pelo conjunto social; tendo, dessa forma, a chance de receber diversos tipos de educação. Além disso, a reprodução, diferentemente do que conhecemos, não é prazerosa, o que faz que cada indivíduo nasça depois de muita reflexão e pura vontade dos genitores.

Prot, o alienígena, demonstra conhecer bastante astronomia, o que fortalece o convencimento de que ele é um viajante do espaço. O relacionamento dele com os outros doentes do hospital psiquiátrico é corrente e marcado pela confiança destes no que ele diz, diferentemente do corpo médico. Há momentos, no entanto, que o “louco k-paxiano” inverte a lógica e é interpretado como sábio, alguém que tem algo a dizer e ensinar, como é o caso a visita a um centro astronômico, onde ele descreve perfeitamente a órbita de seu planeta.

O psicanalista, embora incerto se devesse acreditar ou não nele, permanece com os métodos de tratamento garantidos pela ciência. O paciente o instiga, inegavelmente. Ao recorrer à hipnose, e isso é uma das qualidades do filme, a meu ver, por bem retratar essa ferramenta da psicanálise, descobre a “verdadeira identidade” do extraterrestre Prot.

O habitante do espaço havia sofrido um trauma. Desses, incuráveis. E sua mente, então, para sobreviver, havia inventado uma nova maneira de ser. Uma forma distante dos humanos, em que as vontades e os medos terráqueos passaram a ser pequenos, como são talvez.

O doutor tenta mostrá-lo sua real identidade, pede-o para, pelo menos, considerar a possibilidade de estar errado. Prot declara, provocando reflexão: “Eu considero a possibilidade de ser um humano comum, se você considerar a possibilidade de eu ser de K-Pax”. O doutor cale-se, pergunta-se.

Nós estamos inegavelmente dando constantemente sentidos a nossa vida. Sentidos nossos, que podem, muitas vezes, não corresponderem ao que é tido como normal, saudável mentalmente. Pessoas que admitem isso são as loucas do mundo. E como elas têm muito a dizer de interessante, ou mais que isso, de pertinente. Prot deixa sua mensagem também, e assim a entendi: perceber a vida com a perspectiva da eternidade é uma virtude, e nos faz querer fazer o bem e buscá-lo, esquecendo-se dos interesses imediatos, ou de qualquer um.

K-PAX é o nome de um filme de ficção científica, lançado em 2001. Foi dirigido por Ian Softley e interpretado por Kevin Spacey e Jeff Bridges, entre outros. Foi criado a partir do livro com o mesmo nome, escrito por Gene Brewer. O livro em questão é parte de uma trilogia.

sábado, 6 de setembro de 2008

Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá - Silvio Tendler (2007)

"É preciso explicar por que o mundo de hoje, que é horrível, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e insurreições, e eu ainda sinto a esperança como minha concepção de futuro" 1963

O documentário inicia-se com uma demonstração de esperança de Sartre diante da injustiça e desigualdade, publicada no prefácio do livro Condenados da Terra, de Franz Fanon. Inegavelmente, do começo ao fim, o filme me fez refletir e tomar notas constantemente sobre as idéias lançadas, que são de uma pertinência nítida e que muito ajudam a esclarecer a realidade em que estamos inseridos.

"O consumo hoje que é o grande fundamentalismo”. São valores introjetados tão esmagadoramente em nossa mente, como o consumismo, que correm o risco de não serem questionados. Milton fala sobre sua condição de intelectual, este ser mesmo que não pode se abster de refletir criticamente, e de como é difícil o ser, no Brasil, pela pouca vontade das pessoas, em geral, em ouvir uma palavra crítica sobre o mundo.

O dado fala por si: 500 mais ricos detêm mais riqueza que os 416 milhões mais pobres. Diante disso, Milton Santos configura a existência de três mundos: o mundo como nos fazem ver - a globalização como fábula; o mundo tal como é - a globalização como perversidade; e o mundo como pode ser - uma outra globalização, o mundo da dignidade humana.

O Consenso de Washington entra como comprovação da perversidade do “globalitarismo” - a globalização estabelecida pelo autoritarismo - ao propor uma bula de como se chegar ao desenvolvimento, (austeridade fiscal, aumento de impostos, juros altos para atrair investimentos estrangeiros, privatizações, defesa da capacidade dos setores privados em oposição à ineficiência dos públicos) que trata unicamente da crise financeira em detrimento da situação social e cultural de um país.

Vários exemplos de manifestação popular na América Latina são citados, deixando evidente o completo fiasco que foi esse programa:

  • Quito, Equador, 2000. Numa população de 95% de índios e mestiços, o movimento popular revolta-se e derruba o presidente.
  • Cochabamba, Bolívia, 2000. Uma população de 70% de índios e mestiços revolta-se contra a privatização da água feita pelo presidente pressionado pelo FMI e Banco Mundial para defender os interesses da multinacional Bechtel. Ressalta-se Oscar Oliveira - líder sindical boliviano.
  • La Paz, Bolívia. 2003. Luta pela nacionalização do gás e petróleo.
  • Buenos Aires, Argentina. 2001. Panelaço do povo derrubou três presidentes em duas semanas. A classe média sofre com a desvalorização da moeda.
  • Brasil, 1997. Privatização de grandes empresas, como a Vale do Rio Doce. Manifestações populares foram dissolvidas.

Embora haja um mito positivo sobre globalização de culturas, o nascimento de crenças e vontades globais, é um equívoco pensar que o Estado nacional, este que representa os interesses particulares de uma nação, perdeu sua relevância. É inegável que os Estados Unidos permanecem sólidos na defesa de sua visão de mundo e de seus interesses internacionalmente. Preciso que se diga também que este processo de mundialização também é eficiente em criar fronteiras, quando é conveniente; como são os casos da fronteira dos EUA-México e Melita, um território espanhol em continente africano cercado por muralhas.

A globalização aflorou a divisão internacional do trabalho, aproveitando-se de possíveis facilidades de exploração de mão de obra em países pobres, contribuiu para o fortalecimento das desigualdades. Mostram-se cenas do filme Corporação, que é uma boa referencia no entendimento de como as grandes empresas se comportam a fim de obter lucro.

Achei bem-adequada a divisão elaborada por Josué de Castro em Geopolítica da Fome, de 1961, que apropriadamente se liga a temática do documentário: a população mundial classifica-se em dois grupos - os que não comem e os que não dormem, com receio dos que não comem.

Questões de necessidade primeiras são encaradas como forma de trazer lucros a corporações empresariais. No 3° Fórum Mundial da Água, que se realizou em 2003, em Kioto, Japão, havia na pauta a privatização da água, que foi veementemente defendida por Peter Woicke, diretor administrativo do Banco Mundial na época. Indispensável destacar que 1,5 bilhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia e não têm acesso à água. Mais de 3 bilhões utilizam água sem tratamento e, devido a isso, estima-se que 30 mil seres humanos morram diariamente no mundo. Sobre esse tema, ver o filme Thirst de Alan Snitow e Deborah Kaufmann.

Saramargo, prêmio Nobel de literatura, alerta sobre a necessidade de se discutir democracia mundialmente. Expõe que democracia, para nós, é o povo ser chamado a comparecer nas urnas e que espaços onde realmente são decididos questões de interesse geral e de plena relevância são completamente antidemocráticos: Banco Mundial, FMI, OIT - organização internacional do trabalho, e outros organismos internacionais.

É antidemocrático também o espaço de disseminação de informação oficial: “6 empresas controlam 90% do mercado de mídia do mundo”. Sendo assim, é preciso que se expandam maneiras populares de fazer mídia, que garantam um novo olhar sobre os fatos. O filme ilustra bem como isso já vem acontecendo e, felizmente, Milton Santos acredita ter a tendência a avançar cada vez mais:

  • Carlos Pronzato - poeta e cineasta argentino, acompanha de perto os movimentos sociais na América Latina. Bakunin Digital.
  • Aline Sasahara - cineasta, acompanha a realidade do MST. Inclusive pôde participar da Marcha Nacional do MST de Goiânia/ Brasília em 2005.
  • Adirley Queiroz. Diretor do filme O canto da Ceilândia
  • Joaquim Yawanawá. Cineasta e líder indígena.
  • Tony Venturi e Pablo Georgieff - diretores do filme Dia de Festa.

A antropologia moderna retrata a existência do Homo Davos (local onde geralmente ocorre o Fórum Econômico Mundial) que apregoou o fim da história e propõe fundos para acabar com a pobreza, desconsiderando inúmeros fatores macro-estruturais que estão completamente associados à desigualdade no mundo. Segundo Milton Santos, necessário, ou melhor, essencial é que se mude o foco das discussões de crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico (...) para o que significa ser civilizado, o que é, de fato, civilização. Viemos ensaiando modelos de humanidade, mas esta em si realmente nunca existiu. Ser pessimistas ante o que está configurado atualmente é inevitável, entretanto isso não apaga a confiança no futuro próximo, em que as revoluções se darão, de baixo para cima, fatais.

sábado, 9 de agosto de 2008

Blade Runner – O caçador de andróides (1982)

Num futuro, em que a Terra mais se parece com um amontoado de dejetos robóticos, o filme mostra os problemas que a tecnologia pode trazer. É produzido um ser de composto orgânico-robótico, chamado replicante, para ajudar em missões de difícil execução ou de alta periculosidade. Estes seres, no entanto, que apresentam inteligência humana e força descomunal, corrompem-se facilmente por serem emocionalmente instáveis. Então, são criados os blades runners, os caçadores de andróides, para destri-los.

Percebe-se que a idéia de futuro apresentada no filme é de evidente pessimismo. Os humanos pouco foram capazes de evoluir na construção de uma sociedade de bem-estar para todos. Em vez disso, brincam de criadores de vida e constroem máquinas avançadíssimas, quase humanas, sem ter nenhum tipo de preocupação ética. Os andróides são obrigados a cumprir sua função; os rebelados são simplesmente deletados.

Acompanhamos a trajetória de um blade runner e quatro replicantes restantes. Um deles força um encontro com quem o projetou, pedindo por mais tempo de vida, já que os andróides replicantes foram feitos para durarem quatro anos. Este diz ser impossível tal feito e argumenta que eles são máquinas perfeitas, que por brilharem mais tem, conseqüentemente, uma curta duração. Ao se convencer que sua dor não pode ser apagada, que não pode ter mais tempo de vida, o andróide destrói seu criador.

No momento critico do longa-metragem, em que o blade runner encontra-se encurralado por esse replicante rebelado, questiona-se naquele instante se é possível para o caçador entender como é ser escravo: ser caçado ao sair da linha do que foi programado, viver constantemente com medo... O que significa vida naquele sistema? São colocações que persistem.

Blade Runner, o caçador de andróides é um filme estadunidense de 1982, do gênero ficção científica, realizado por Ridley Scott, e ilustrando uma visão negra e futurística de Los Angeles em novembro de 2019.

domingo, 3 de agosto de 2008

INTO THE WILD - Na natureza selvagem

Eu assisti a esse filme à tarde do dia 1° de agosto, num momento em que era preciso reencontrar coragem e motivação para fazer minhas atividades profissionais diárias. Foi, sem dúvida, um momento válido, que inclusive me instigou a vê-lo mais de uma vez.

A história é sobre um garoto que acaba de concluir a formação universitária. No entanto, querendo se desintoxicar dos males da “civilização”, ele parte de casa, livra-se do dinheiro e passa a viver como uma viajante, fazendo e conseguindo tudo unicamente com suas mãos, com sua força de vontade. Leituras como Jack London e convivência com a hipocrisia e a intolerância, que ele acompanhava marcamente em casa, fizeram com que Chris passasse a negar seus valores culturais deletérios, como o materialismo. Assim, nasce o Alexander Supertramp, o nome que dá a seu novo eu. O garoto que diz não precisar de dinheiro, pois este torna as pessoas mais cautelosas, e ter tudo que precisa na natureza, na aventura e em si.

Identifiquei-me
bastante com sua visão de mundo e com sua ousadia.
Dos momentos marcantes, há um em que ele vai a Los Angeles e se percebe perturbado pela maneira de vida das pessoas. Vê que poderia ter se tornado um deles: buscar e enganar-se tão profundamente pela busca interminável do aparente conforto material. Então, sai da cidade instantaneamente.

Supertramp entra em contato com várias pessoas, entre elas um casal hippie. Neste, há uma mulher que, penosa de ter se desencontrado de seu filho por dois anos, lembra o menino freqüentemente de seus pais. “As crianças podem ser cruéis com seus pais”. Sim, o relacionamento entre pais e filhos, que tão difícil se mostra na juventude, é abordado pertinemente. Vemos a vida de nossos pais como uma seqüência de erros, e só esperamos ser distintos dos mesmos. Às vezes, desejamos tanto estar longe de suas visões caretas, estúpidas, ignorantes, intolerantes das coisas! Sofremos e causamos sofrimento.

O jovem precisou sair para se fazer. Como ele mesmo diz, o ser humano é movido pelo a energia e a alegria do novo. Mas há o velho, o passado, a família, que num fim de dia nos chama, nos atormenta. E há como mediar isso? Como construir suas experiênicas, se aventurar, sem causar saudade, sem se afastar tanto da família ao ponto de não mais reconhecê-la, não mais se identificar com ela?

O contato com a natureza, com seus limites e com a solidão proporciona o entendimento verdadeiro de quem somos. Quando só há a companhia da mente, nos encontramos realmente. É isso que Alex Supertramp acredita e o que segue sem olhar para trás, buscando a sobrevivência sem contar com os artifícios modernos, dando valor ao que realmente conta para a permanência da vida. Este filme, inegavelmente, incita a uma busca por mudança no estilo de vida, por mais ousadia, por mais senso crítico.

A solidão é constante. A aventura, a libertação total tem um preço caro. Sua última frase fica seguidamente em na mente, exigindo uma reflexão: “A felicidade só é real quando compartilhada”. E para se compartilhar, não é preciso ser capaz de entender mais a fundo as pessoas? Assim, ser capazes de perdoá-las, embora tenha cruelmente nos ferido? Perto do fim, um velho senhor diz ao garoto destemido: quando se perdoa, se ama. E amar é sentir a luz, a imensidão do divino em nós.

Into the Wild é o nome original do livro escrito por Jon Krakauer em 1996, e que conta a história verídica de Christopher McCandless. Em 2007, o livro foi adaptado para o cinema, estreando o filme com o mesmo nome do livro. Diretor: Sean Penn.