Somos informados, com essa conversa, que as fábricas na região se multiplicam, enquanto fecham as oficinas. Os mineradores são continuadamente ameaçados pelo perigo de desemprego e de redução de salário e desconhecem o proprietário do lugar onde trabalham, o que certamente dificulta a articulação dos mesmos na luta organizada.
Ainda escuro, Catherine prepara-se para o dia de ofício. Ela é uma dos sete filhos de Toussaint e Maheude e, assim como seus irmãos, trabalha na mina Voreux para contribuir em casa. O café da manhã deles é composto de sobras da refeição anterior. A preocupação dos genitores se faz presente em seu diálogo: as dívidas se amontoam; o dinheiro proveniente dos salários é insuficiente; é preciso comer. “Não preciso ver a cor dos meus pensamentos”, diz a mãe Maheude, ao se apagarem as velas. O que angustia, assim como a vários trabalhadores, é a sobrevivência.
Em Voreux, quando a família Maheu se prepara para o início das atividades, o falecimento de uma operária é comunicado. É a necessidade de substituí-la que movimenta a cena, e isso é feito com a contratação de Étienne. Mulheres e homens enfrentam as mesmas condições de trabalho: insegurança, exaustão física, higiene precária, falta de proteção à saúde. Têm uma cota de vagonetes a cumprir e, por isso, não podem desperdiçar tempo fazendo os escoramentos das paredes rachadas. Há, conseqüentemente, o risco constante de desabamento.
Catherine e Étienne compartilham um almoço. É um entre raros momentos descontraídos do longa-metragem, embora ainda nos confira uma forte sensação de miséria. Em contraste, conhecemos o início do dia da família burguesa. O café da manhã é variado, apetitoso. Não se precisa acordar cedo; as pessoas sorriem. As crianças se dedicam ao estudo da música. Esse clima ameno só é interrompido com a solicitação de ajuda de Maheude, acompanhada de dois filhos. Fica marcado, a partir de então, a hipocrisia e o egocentrismo dos abastados ao subentendidamente culpá-la por sua situação, evidenciando a importância de se poupar, não desperdiçar com bebida e controlar a natalidade. No fim, a jovem Cécile oferece um pedaço de bolo que inegavelmente nos remete ao mesmo que se faz com um cachorro.
Também na mercearia, a mãe nada consegue, mesmo apelando à misericórdia do proprietário. Este sugere que Maheude prostitua a filha para obter seu objetivo. A prostituição feminina é bastante evidenciada nessa obra; é o que observamos no relacionamento que Catherine desenvolve com Chaval, que claramente só acontece devido à precisão desta.
O diretor visita à mina. Maheu é condenado por mau escoramento e é comunicado da decisão da companhia de diminuir o preço do valor recebido por vagonete e pagar o escoramento à parte. O argumento para isso é que a empresa que perde com os desabamentos, por ter que pagar pensões. Toussaint, absurdamente, é multado por escoramento ruim. A revolta entre os trabalhadores se mostra crescente.
No bar, confrontam-se visões anarquistas e marxistas do conflito patrão-empregado. Étienne declara ser crente na força do operário unido como fonte de mudanças. Propõe-se a criação de uma caixa de resistência – uma reserva monetária – para que a paralisação possa ocorrer, caso a companhia insista na nova proposta de pagamento.
Ocorre uma festa. Nela, Étienne convence seus companheiros a contribuir com a caixa. Também se consolida o casamento do irmão de Catherine, Zacharie. Interessante perceber que a união matrimonial entre os dois membros da classe afortunada – Cécile e Négrel – é totalmente distinta desta, uma vez que é corrompida pelo interesse, a falácia, a traição. O dinheiro degenera as relações, não garante a felicidade.
Desaba-se uma parte da mina. Um filho de Maheu é ferido. Num momento de profundo pesar do pai, chega o diretor, aos gritos, afirmando que a companhia quem realmente perde com os acidentes. Toussaint Maheu está completamente decidido pela greve. No dia do pagamento, acompanhando a insatisfação dos companheiros, ele e Étienne os convocam a uma paralisação.
No outro dia, no almoço, os proprietários da mina analisam a fatalidade da revolta operária: a América cessou o pedido de ferro, o que prejudicou as fábricas. Estas passaram a comprar menos carvão. A concorrência obrigou-os a baixar os preços, o que motivou a um aumento de produção, como também a abaixar os custos (os salários). Os trabalhadores sofrem, já que a companhia não diminui seu lucro.
Uma delegação do comando de greve é enviada para negociar. O que recebem como resposta é uma repreensão por se envolverem politicamente e um pedido para que entendam a situação difícil que a empresa enfrenta. A frase de Étienne pertinentemente soa: “Querem que aceitemos a situação e comem brioches todo dia. Algum dia, haverá pão para todos”.
Um mês depois, nenhuma conquista é feita. Na mina Jean-Bart, Catherine e Chaval ainda trabalham. Na assembléia, os mineiros da Voreux decidem-se pela intervenção onde o trabalho permanece.
Chaval organiza um motim na Jean-Bart; abandona, contudo, o interesse comum ao ser seduzido por uma proposta de promoção e retoma as atividades. Acontece, então, uma manifestação ativa dos mineradores que buscam o fortalecimento do movimento grevista. Depredam, pois, a mina e agridem os operários que permaneceram em ofício. Tomados pela energia, atacam a mercearia, matando violentamente o Maigrat, seu proprietário. A chegada da polícia dissipa a revolta. Étienne torna-se fugitivo.
A greve se alonga. Uma filha da família Maheu morre, a fome é insustentável. A burguesia se mostra irredutível e disposta a trazer estrangeiros para ocupar o lugar dos revoltosos. No dia marcado para isso ocorrer, os grevistas, numa demonstração pura de coragem e determinação, enfrentam o exército que fazia a proteção da mina. Toussaint Maheu é mortalmente atingido. Após essa tragédia, a paralisação enfraquece substancialmente.
Catherine, depois de ser expulsa da casa de Chaval, por ter protegido Étienne, se disponibiliza a voltar com seu emprego. E o faz, apesar de ser energicamente repreendida por sua mãe, acompanhada por Étienne. Na mina, uma inundação provocada ameaça a vida dos operários. Nesse contexto desesperador, Chaval e Étienne se agridem pelo amor de Catherine, o que culmina na morte do primeiro. A desesperança de sobreviver acaba unindo Catherine e Étienne, que confessam o que sentem.
Tragicamente, a família Maheu perde mais dois membros: Catherine, que não resiste à noite na mina, e Zacharie, que é carbonizado em um acidente. A caridade tardia da família burguesa é recebida com o assassinato de Cécile por Bonnemort, que enlouqueceu. Étienne sobrevive e resolve mudar-se. Não há ressentimentos ou rancores no seu peito, ele sentia que amadurecia sua compreensão do mundo: “Um exército negro, vingador, que germinava lentamente, crescendo para as colheitas do século futuro, e cuja germinação logo faria rebentar a Terra”.
ESTÉTICA
Cores:
O ambiente compartilhado pelos mineradores se apresenta, no geral, tomado pela escuridão, o que assegura um mal-estar ao espectador, assim como uma sensação de falta de higiene e miséria. A exceção ocorre em dois momentos: na manifestação do movimento grevista e na festa. Nesta última, fica bem perceptível a limpeza do vestuário e do corpo dos personagens.
Quando se trata da classe burguesa, o ambiente é iluminado, marcado por tons fortes. O jogo de cores é uma componente importante da obra, já que serve satisfatoriamente para evidenciar a discrepância de condições dos proprietários, luxo e opulência, e a dos trabalhadores, pobreza e exploração.
Figurino:
A roupa de Étienne tem tom vivo, diferentemente do resto dos operários, que apresentam vestuário em cores neutras, desgastadas. Isso se deve ao papel que ele exerce de instigar e movimentar seus companheiros. Também a classe abastada tem roupas bem-iluminadas, consideravelmente detalhadas e pomposas.
Trilha sonora:
A música acompanha momentos críticos e marcantes do filme. Os encontros de Étienne e Catherine são sempre assinalados com uma melodia tênue, melancólica, fortalecendo a existência de um sentimento oculto entre eles.
Na passeata, em que os mineiros se manifestam energicamente em favor de sua causa, a música provoca mais euforia e animação à cena. Na festa dos mineradores também é utilizada um ritmo forte e descontraído.
