domingo, 20 de dezembro de 2009

The Boy in the Stripped Pyjamas (O Menino do Pijama Listrado), de Mark Herman (2008)

Eu não julgo os nazistas. Não acho que se deva ser muito desumano e cruel para matar do modo como fizeram. Não vou muito longe, basta falar do que vejo, do que compactuo. Eu vejo fome e miséria na rua diariamente, eu vejo a humilhação de ser invisível e indesejado. Todos os dias. Há de certo modo alguma engrenagem que compactuamos que nos levam a aceitar os nivelamentos de valor de vida.

Não sei até que ponto não sabemos, ou preferimos continuar com a ilusão de conforto e segurança. Não sabemos da fome na calçada, do frio da rua, dos meninos de rua, dos prostituídos, dos animais em matadouros. E se sabemos, o que fazer contra um sistema tão bem articulado? Como se contrapor? Por quê? Não sou eu mesmo...

Não sei até que ponto os alemães não sabiam; não sei até que ponto demonizá-los vai abafar a revolta que se sente diante do holocausto. Fico calada, porque eu sou também uma alemã da década de 30 que também se prende a sua ignorância. Viva a ignorância!

Há coisas grandes. Nesta vida, há certas coisas que são de extrema importância, e dificilmente percebemos. Toda e qualquer nível de brutalidade parece tão estúpido diante delas. Estúpido. Há tanta desgraças, tanta fraqueza, tantos problemas... que todo e qualquer egoísmo parece, no mínimo, estúpido.

As pessoas são o que há de melhor. O filme nos mostra tão claramente que violência e intolerância são sempre tolas. Destaque para o momento em que o pequeno Bruno corre pela primeira vez pelo campo, livre, explorador, e para a música que o acompanha.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Slumdog Millionaire (Quem quer ser um milionário), de Danny Boyle (2008)

Eu gostei. Porque penso que tudo que é produzido tem que necessariamente nos colocar para refletir sobre o mundo de hoje. Seja sobre a extrema desigualdade, a pobreza, a violência, as guerras, isso nos leva a sair um pouco do pequeno e mesquinho espaço do umbigo e ser mais sensato.

A vida dura dos dois irmãos Jamal e Salin me conduziu aos meninos mendicantes de Fortaleza que eu estou vendo crescer. O que fazer? O que esses meninos passam diariamente para se alimentar? A todo tipo de humilhação e invisibilidade social estão sujeitos em tão tenra idade... E a violência acaba se tornando uma resposta necessária ao meio adverso...

Chamou-se especial atenção o uso que um criminoso indiano faz das crianças mendigas, ao cegá-las para aumentar a esmola. E depois quando aparece uma dessas crianças, cantando, cega, sua conversa com Jamal sobre sua pouca sorte, com seus olhos brancos a se revirarem, toca.

As imagens da infância sofrida poderia ter se passado no Brasil, em Fortaleza. Fica tão simples de entender a relação entre necessidade e ‘crime’ nelas. São cenas de um colorido e brilho contagiante, que me provocaram: enquanto enfrento minhas ralas dificuldades me lamentando, cedo às minhas futilidades e dissipo energia em aparências, há crianças por aí sem nenhum amparo.

Tenho que fazer algo por alguém para me salvar. Há esperança para nós, apesar de tudo. Esta é a mensagem do filme, que enfatiza em seu final que é possível reconstruir tudo com o amor, no caso a redenção de Jamal e Latika. O irmão, Salin, também se salva ao considerar o outro e permitir que Latika fuja, custando sua vida, e encontre-se com seu amado.

Também é preciso que se mencione o jogo “quem quer ser um milionário”, em que o favelado (slumdog) e entregador de chá contraria o que se espera de alguém em sua condição e o vence. O que sabe um favelado? O que nós sabemos?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Yes man (Sim senhor), de Peyton Reed (2008)

Um filme muito clichê, com direito a separação do casal, corrida homérica de encontro e final feliz. Mas tem algo de bom, que é sobre se jogar, sobre dizer sim para as coisas, embora pareçam totalmente fora do seu contexto de personalidade.

Sem contar que demonstra uma visão positiva da vida, como se esta fosse “um parque de diversões”. Eu gosto disso, embora prefira sempre refletir com responsabilidade e sobriedade. sobre as coisas. Há cenas realmente engraçadas, irônicas, como aquela em que ele ajude o mendigo e se dá mal depois.

No fim, um filme para se ver uma vez só na vida. E já é muito!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Saneamento básico, de Jorge Furtado (2007)

O roteiro, a atuação, o modo de filmagem, a trilha sonora, tudo muito singelo. É uma quebra com a previsibilidade das produções com atores globais, em que o mundo urbano, fútil, consumista, está sempre tão forte. A linguagem é bem mais simples, dessa vez se destaca o modo de viver interiorano, de classe média, de menos acesso a bens culturais.

A única cena que achei modestamente engraçada e cativante foi a que a terceira idade do filme, no caso o personagem de Paulo José com o de Tonico Pereira comparam os aparelhos de som de seus carros, com destaque para o momento em que os dois param atentamente para ouvir uma velha música. É tocante, é simples.

Gostei, em especial, da atuação do Wagner Moura. Encarou bem a aura da simplicidade e da tranqüilidade. As complicações a respeito da falta de informação quando da produção do vídeo me levaram a pensar em qual época o filme se passa em que não há um computador disponível. Na verdade, a ignorância é geral. São pessoas comuns, de ocupação manual. Há alusões à educação de qualidade duvidosa das faculdades pequenas (Mariana fez faculdade de administração, e Fabrício de turismo, e são zoados por isso). É interessante ver os personagens fazendo seus papéis simplórios para o vídeo: atores consagrados se comportando como atores ruins.

Fica evidente à crítica a politicagem, no caso do prefeito que só vem para fazer propaganda política e pouco se envolve com os problemas comunitários. O vídeo feito dentro do filme trata a questão ambiental muito ralamente, apelando pro ‘proteja a natureza’ em uma cena que mistura a beleza da natureza com a da Camila Pitanga, em uma fusão confusa e meio non-sense.

O enredo trata, grosso modo, de pessoas mal-preparadas e criativas, que realizam um filme no mínimo ruim e com uma história fraca, como não poderia deixar de ser, mas que por terem conseguido, consegue finalizar razoavelmente, aceitavelmente, tal como este texto...

terça-feira, 24 de março de 2009

À primeira vista, de Irwin Winkler (1999)

A razão instrumental reflete uma compreensão moderna de conhecimento, na qual este se aplica principalmente com o fim de garantir o domínio e exploração da natureza, de propiciar os meios de existência da vida humana e, desde que cumpra tal objetivo, se legitima. A ciência passa a ser um instrumento de poder sobre a natureza, em vez de compor uma reflexão substantiva da existência humana e levar à emancipação da humanidade. Esta concepção cientificista se afirma e se valida pelo seu valor prático e por sua objetividade, que afiança sua veracidade.
Tendo cedido em sua autonomia, a razão tornou-se um instrumento. No aspecto formalista da razão subjetiva, sublinhada pelo positivismo, enfatiza-se a sua não-referência a um conteúdo objetivo; em seu aspecto instrumental, sublinhado pelo pragmatismo, enfatiza-se a sua submissão a conteúdos heterônomos. A razão tornou-se algo inteiramente aproveitado no processo social. Seu valor operacional, seu papel de domínio dos homens e da natureza tornou-se o único critério para avaliá-la."' (Max Horkheimer, Eclipse da Razão, Ed. Centauro, p. 29).

É fundada num mito de infalibilidade, assegurada pelo método, que constitui uma maneira tida como exata de extrair as distorções advindas dos sentidos, da subjetividade. Desse modo, o mundo moderno tem na ciência sua única produtora de verdade, absoluta, e é ela que possui a credibilidade, ou melhor, a crença, do ser humano moderno para se pronunciar sobre o mundo. Por meio da objetividade, da imparcialidade, chega-se a um entendimento das coisas, e sua explicação é comandada pela lógica instrumental. Os sentimentos, a imaginação, são relegados a segundo plano e passam a ser totalmente inadequados quanto se trata de conhecimento oficial.

Não apenas o meio oficial acadêmico e técnico, também as atividades que dizem respeito ao dia-a-dia, estão tão contaminadas pelo entendimento que é a imparcialidade que valida os saberes, o profissionalismo que assegura qualidade, que “apelar” para sentimentos é ser infantil, piegas, imaturo emocionalmente, ou seja, é não está amadurecido o suficiente para entender que o mundo é racional, passível de ser explicado pelo raciocínio, um universo desencantado, adjetivo esse de Max Weber para retratar os tempos modernos.

Quando, na verdade, evidencia-se que esse modo de conceber o conhecimento e de pensar que se sobressaiu historicamente – a razão instrumental – não dá conta de explicar, ou o faz de maneira bastante questionável, questões filosóficas primeiras da existência humana, como o que somos nós, o que fazemos aqui, se há Deus, o que acontece após a morte, se estamos sozinhos no universo, indaga-se sobre sua eficiência e soberania. Ao analisar as superstições, o imaginário, as mitologias, a espiritualidade, as religiões, fica tão manifesto sua limitação para explicar isso, que também faz parte da natureza humana: o encantamento, os sentimentos, que difícil é de explicar ou gerar produtos.

Iniciando minhas considerações mais especificas sobre a narrativa, ressalto como as imagens se validam, sem precisar de maiores explicações, como comunicadoras de saber, justamente por falarem de coisas que transcendem o racionalismo cientifico. E são essas coisas que procurei investigar na minha análise: esse conhecimento que muito tem a dizer, a questionar, a acrescentar ao entendimento da vida e do mundo, e que não se utiliza do método cientifico para se pretender absoluto. A narrativa tem sua base no encontro e relacionamento amoroso entre Virgil, cego e com todas as implicações disso, e Amy, citadina, laboriosa e com o que isso implica também. É um confronto de dois modos de entender a vida, de como esta deve ser vivida, cujas incompatibilidades e preenchimentos configuram o enredo.

Os cegos não têm a visão para descobrir a realidade. Sua confiança, portanto, nos sentimentos e na intuição é bem mais apurada que os dotados de visão, que podem, me utilizando de uma passagem bíblica, “ver para crer”. Sem contar que as aparências, tão explorada atualmente para vender verdades, não os enganam, não os bastam, é preciso uma investigação mais profunda para se conhecer. Quando o trabalho, o esforço, só são justificados por oferecerem resultados, quando o entendimento que se preza é o ligado ao domínio, à técnica, torna-se patente uma contradição com o estilo de vida cego, com sua superestimação do que não é visto; mas como diz Virgil em uma cena, que não deixa de existir por ser invisível.

Submeter-se aos fins, pensando ser normal e ideal, tem um preço caro. Assim alerta Amy com sua dificuldade de descansar, sua pressa e produção constante, sua superficialidade, mesmo nos campos estritamente sentimentais, como o amor, seu infelicidade por ser limitada: não saber como lidar com tanta informação, com o que sente, com tanta obrigação. Nesse estado, disponibiliza-se a conhecer um Spa e receber uma massagem. No toque quente e profundo de Virgil, permite-se demonstrar sua fraqueza, sua debilidade, sua carência, e sente-se fortemente provocada por ele que a proporcionou isso.

Numa das cenas, Virgil leva-a para conhecer sua pequena e aconchegante cidade. Ao chegar ao limite do que para ele era conhecido, eles encontram um prédio abandonado situado entre duas árvores, belas, que se apresentam como se fosse um homem e uma mulher num momento de convite à dança. Grosso modo, essa foi a descrição dado por ela diante do pedido de Virgil para descrever o ambiente, o que me chamou atenção por ser marcadamente poética e subjetiva sua forma de explicar para ele o que ver e, exatamente por ser assim, permitiu que o homem cego o entendesse perfeitamente. As apreensões de que a chuva pode trazer coloca-se para Virgil como uma forma de compreender a dimensão do espaço, o que fascina Amy em sua praticidade hegemônica e penúria emocional.

O filme me fez refletir que a instrumentalidade, com sua lógica da serventia, é apenas um dos vários olhares possíveis sobre a vida, e não saber disso leva-nos a abandonar e deslegitimar implicações essenciais do que significa estar vivo. Temos informação excessiva, mas não sabemos o que fazer com ela e nos sentimos fracos diante da nossa restrição em acompanhá-la e dominá-la. Eu, por minha vez, diante desse impasse, sugiro que, quanto à conhecimento e tudo mais que está aí para ser dominado, nos orientemos, na medida do possível, pelo o que nos diz mais sobre o que somos, pelo o que nos acrescenta algo, pelo o que nos alimenta o espírito. Não aceitemos sem desconfiança os manuais preponderantes de como se deve pensar e viver, permitamo-nos permear pela experiência, pela tentativa. Experimentação são explorações pessoais para se conhecer e não há como apagar os instintos, o coração, os sentimentos, a imaginação; porque tudo isso, embora digam que não, também faz parte de nós. Se as investigações constituíram um erro ou um acerto – segundo à razão instrumental, os resultados – isso não está em questão. São as experiências que constituem o viver, entre as alegrias e frustrações possíveis, que sempre nos ensina algo. Viva as atividades e coisas inúteis.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O labirinto do fauno - Guillermo Del Toro (2006)

É um filme belo, indispensável dizer. As imagens encantam, sobressai-se a floresta sul-americana em que foi produzido. Mas, mais importante que o que se vê, é o que se sente com o conjunto da obra – imagem e som, e pensando nisso, a longa-metragem me foi fantasticamente tocante.

Há uma contraposição clara permeando os acontecimentos na vida de Ofélia. Dois universos: em um deles os olhos, os ouvidos e a boca funcionam fisiologicamente como se espera, autômatos, a realidade não surpreende, que de tão objetiva, clara, não se pode escapar, não se transcende a crueldade, que não é mais que uma manifestação de incompreensão que o Eu habita o outro. O mundo contrastante a este se mostra totalmente distinto, se expressando pela existência da possibilidade. Os olhos funcionam fisiologicamente como no primeiro, mas podem ver o que se sente: faunos, fadas, reinos, criaturas mágicas. A vida torna-se mais leve; os sofrimentos diluem-se.

A garota passeia alternadamente pelos mundos. E cabe ao interlocutor decidir em qual acredita: Ofélia simplesmente fantasia em demonstrações de esquizofrenia sobre os contos de fada que lê para fugir da realidade ou é uma princesa de um mundo subterrâneo onde não existem mentiras ou dor? É preciso morrer quando se habita o não-mágico, o cru, em que a existência se esvai por causos de insignificante propósito, para se conhecer a pureza e a sabedoria que existe na magia?

Tanta injustiça e crueldade sofrem as pessoas no filme e fora dele. Como lutar contra isso? Não sei a resposta, só desconfio que a confiança no que é mágico, inesperado e incompreensível faça parte dela.