terça-feira, 24 de março de 2009

À primeira vista, de Irwin Winkler (1999)

A razão instrumental reflete uma compreensão moderna de conhecimento, na qual este se aplica principalmente com o fim de garantir o domínio e exploração da natureza, de propiciar os meios de existência da vida humana e, desde que cumpra tal objetivo, se legitima. A ciência passa a ser um instrumento de poder sobre a natureza, em vez de compor uma reflexão substantiva da existência humana e levar à emancipação da humanidade. Esta concepção cientificista se afirma e se valida pelo seu valor prático e por sua objetividade, que afiança sua veracidade.
Tendo cedido em sua autonomia, a razão tornou-se um instrumento. No aspecto formalista da razão subjetiva, sublinhada pelo positivismo, enfatiza-se a sua não-referência a um conteúdo objetivo; em seu aspecto instrumental, sublinhado pelo pragmatismo, enfatiza-se a sua submissão a conteúdos heterônomos. A razão tornou-se algo inteiramente aproveitado no processo social. Seu valor operacional, seu papel de domínio dos homens e da natureza tornou-se o único critério para avaliá-la."' (Max Horkheimer, Eclipse da Razão, Ed. Centauro, p. 29).

É fundada num mito de infalibilidade, assegurada pelo método, que constitui uma maneira tida como exata de extrair as distorções advindas dos sentidos, da subjetividade. Desse modo, o mundo moderno tem na ciência sua única produtora de verdade, absoluta, e é ela que possui a credibilidade, ou melhor, a crença, do ser humano moderno para se pronunciar sobre o mundo. Por meio da objetividade, da imparcialidade, chega-se a um entendimento das coisas, e sua explicação é comandada pela lógica instrumental. Os sentimentos, a imaginação, são relegados a segundo plano e passam a ser totalmente inadequados quanto se trata de conhecimento oficial.

Não apenas o meio oficial acadêmico e técnico, também as atividades que dizem respeito ao dia-a-dia, estão tão contaminadas pelo entendimento que é a imparcialidade que valida os saberes, o profissionalismo que assegura qualidade, que “apelar” para sentimentos é ser infantil, piegas, imaturo emocionalmente, ou seja, é não está amadurecido o suficiente para entender que o mundo é racional, passível de ser explicado pelo raciocínio, um universo desencantado, adjetivo esse de Max Weber para retratar os tempos modernos.

Quando, na verdade, evidencia-se que esse modo de conceber o conhecimento e de pensar que se sobressaiu historicamente – a razão instrumental – não dá conta de explicar, ou o faz de maneira bastante questionável, questões filosóficas primeiras da existência humana, como o que somos nós, o que fazemos aqui, se há Deus, o que acontece após a morte, se estamos sozinhos no universo, indaga-se sobre sua eficiência e soberania. Ao analisar as superstições, o imaginário, as mitologias, a espiritualidade, as religiões, fica tão manifesto sua limitação para explicar isso, que também faz parte da natureza humana: o encantamento, os sentimentos, que difícil é de explicar ou gerar produtos.

Iniciando minhas considerações mais especificas sobre a narrativa, ressalto como as imagens se validam, sem precisar de maiores explicações, como comunicadoras de saber, justamente por falarem de coisas que transcendem o racionalismo cientifico. E são essas coisas que procurei investigar na minha análise: esse conhecimento que muito tem a dizer, a questionar, a acrescentar ao entendimento da vida e do mundo, e que não se utiliza do método cientifico para se pretender absoluto. A narrativa tem sua base no encontro e relacionamento amoroso entre Virgil, cego e com todas as implicações disso, e Amy, citadina, laboriosa e com o que isso implica também. É um confronto de dois modos de entender a vida, de como esta deve ser vivida, cujas incompatibilidades e preenchimentos configuram o enredo.

Os cegos não têm a visão para descobrir a realidade. Sua confiança, portanto, nos sentimentos e na intuição é bem mais apurada que os dotados de visão, que podem, me utilizando de uma passagem bíblica, “ver para crer”. Sem contar que as aparências, tão explorada atualmente para vender verdades, não os enganam, não os bastam, é preciso uma investigação mais profunda para se conhecer. Quando o trabalho, o esforço, só são justificados por oferecerem resultados, quando o entendimento que se preza é o ligado ao domínio, à técnica, torna-se patente uma contradição com o estilo de vida cego, com sua superestimação do que não é visto; mas como diz Virgil em uma cena, que não deixa de existir por ser invisível.

Submeter-se aos fins, pensando ser normal e ideal, tem um preço caro. Assim alerta Amy com sua dificuldade de descansar, sua pressa e produção constante, sua superficialidade, mesmo nos campos estritamente sentimentais, como o amor, seu infelicidade por ser limitada: não saber como lidar com tanta informação, com o que sente, com tanta obrigação. Nesse estado, disponibiliza-se a conhecer um Spa e receber uma massagem. No toque quente e profundo de Virgil, permite-se demonstrar sua fraqueza, sua debilidade, sua carência, e sente-se fortemente provocada por ele que a proporcionou isso.

Numa das cenas, Virgil leva-a para conhecer sua pequena e aconchegante cidade. Ao chegar ao limite do que para ele era conhecido, eles encontram um prédio abandonado situado entre duas árvores, belas, que se apresentam como se fosse um homem e uma mulher num momento de convite à dança. Grosso modo, essa foi a descrição dado por ela diante do pedido de Virgil para descrever o ambiente, o que me chamou atenção por ser marcadamente poética e subjetiva sua forma de explicar para ele o que ver e, exatamente por ser assim, permitiu que o homem cego o entendesse perfeitamente. As apreensões de que a chuva pode trazer coloca-se para Virgil como uma forma de compreender a dimensão do espaço, o que fascina Amy em sua praticidade hegemônica e penúria emocional.

O filme me fez refletir que a instrumentalidade, com sua lógica da serventia, é apenas um dos vários olhares possíveis sobre a vida, e não saber disso leva-nos a abandonar e deslegitimar implicações essenciais do que significa estar vivo. Temos informação excessiva, mas não sabemos o que fazer com ela e nos sentimos fracos diante da nossa restrição em acompanhá-la e dominá-la. Eu, por minha vez, diante desse impasse, sugiro que, quanto à conhecimento e tudo mais que está aí para ser dominado, nos orientemos, na medida do possível, pelo o que nos diz mais sobre o que somos, pelo o que nos acrescenta algo, pelo o que nos alimenta o espírito. Não aceitemos sem desconfiança os manuais preponderantes de como se deve pensar e viver, permitamo-nos permear pela experiência, pela tentativa. Experimentação são explorações pessoais para se conhecer e não há como apagar os instintos, o coração, os sentimentos, a imaginação; porque tudo isso, embora digam que não, também faz parte de nós. Se as investigações constituíram um erro ou um acerto – segundo à razão instrumental, os resultados – isso não está em questão. São as experiências que constituem o viver, entre as alegrias e frustrações possíveis, que sempre nos ensina algo. Viva as atividades e coisas inúteis.

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