sábado, 27 de setembro de 2008

2046, Wong Kar-wai (2004)

Justamente por ter chegado atrasada a sua exibição e ter permitido conversas constantes com um amigo, posso dizer que pouco acompanhei o enredo e, portanto, pouco o entendi.

Inegável me foi, no entanto, a beleza da fotografia, assim como o estranhamento, por se tratar de um filme com um desenrolar completamente distinto dos padrões estadunidenses. O contar da história não segue uma ordem linear, como também é mais lenta do que o usual. Os personagens travam diálogos bem conectados, o que me fez gostar ainda mais do longa-metragem.

O tema, enfim, é amor. Esse tema universal, repetitivo, incompreendido, está nas imagens e nas bocas dos personagens, permitindo devaneios de identificação ou de reprovação. A trilha sonora também me pareceu boa. A música usada para dramatizar ficou bem clara no decorrer do filme por sua repetição constante. O que acabou sendo a razão de piadinhas entre meu amigo e eu, mais isso já é outra história...

sábado, 20 de setembro de 2008

Poder além da vida - Peaceful warrior - Victor Salva (2006)

Muito há o que se pensar sobre esse filme, pois este é um daqueles que pretendem justamente isso: fazer o espectador parar e refletir. No começo, fiquei pouca convencida de que este me traria algo de espetacular, o que foi se confirmando com o decorrer do filme. No fim, não achei a mensagem nada demais. É algo que já sabia, mas não com a sensibilidade transmitida pelas cenas. Talvez, por isso, tenha servido. Foi-me apresentada uma forma tangível de usar isso.

O enredo é sobre um rapaz que persegue seu sonho: tornar-se medalhista olímpico na ginástica. Embora sua vida esteja bem-programada, indo no caminho certo, ele se percebe perdido, sentindo que falta algo que desconhece. Envolve-se, então, com um senhor, que parece saber o que fazer sempre: na hora certa, no lugar certo. O velho provoca-o, mostrando ser claramente alguém que segue uma lógica distinta, alguém que inventou sua própria maneira de entender o mundo.

“Encontre suas próprias respostas, pare de seguir os que os outros dizem para você fazer”, diz ele, oferecendo uma primeira dica para se descobrir o que realmente significa viver. Esvaziar a mente, tirar o “lixo” fora, expelir aqueles pensamentos que nos impedem de viver o instante, de sentir o que está acontecendo no presente, é o que sugere o velho, pacientemente, esperando a gradual transformação do garoto num guerreiro.

Das partes que mais me encantaram, fica a que o velho, encarnando bem estereotipicamente o perfil de sábio, fala que ser guerreiro não significa ser perfeito, ter sempre vitórias e ser invulnerável. Pelo contrário, significa reconhecer ser fraco: a completa vulnerabilidade. É justamente ao lidar com essa verdade que se encontra a verdadeira coragem.

O senhor insiste inúmeras vezes na distinção entre conhecimento e sabedoria, expondo que a última está totalmente associada à ação. Desse modo, perante um assalto, “age” com compreensão em relação aos assaltantes, afinal, como ele bem sabe “aqueles que são difíceis de amar, são os que mais necessitam”.

Ele oferece também três direcionamentos de consciência para o jovem, nomeadas de: paradoxo - não perca tempo tentando entender as coisas, a vida é um mistério; senso de humor - aprenda a rir, principalmente de si mesmo, saber se divertir é uma boa proteção contra os problemas; e mudança - saber que nada permanece o mesmo.

Como eu disse antes, o filme é permeado de clichês, muito pretensioso com suas filosofices e não traz nada de completamente novo. Por tudo isso, pode ser impressionante que tenha me feito diferente. Pode ser que seja a composição de algumas imagens, exibidas em câmara lenta, ou porque a gente costuma deixar de lado o que, no fundo, sabemos. Há uma necessidade de nos lembrarmos constantemente da importância de se viver o momento, de jogar fora tudo os devaneios de futuro e passado, de não se mover buscando unicamente resultado, mas compreendendo que o que traz felicidade é o processo, a jornada, e não o fim, até porque este é imprevisível, fora de nosso controle. Não temos controle sobre a vida, ponto. Termino o texto, com o mesmo fim de Victor Salva:

Onde você está?

- Aqui.

Que horas são?

- Agora.

O que você é?

- Este momento.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O incrível Hulk - Louis Leterrier (2008)

Como eu desconheço os quadrinhos de Hulk, devo confessar que o assisti esperando uma diversão barata apenas proporcionada pela ação com grandes efeitos especiais e piadinhas de simples entendimento. Desse modo, o longa-metragem me pareceu útil. E até mais, me aflorou a imaginação ao me confrontar com situações completamente inverossímeis do enredo.

À lá filmes hollywoodianos, os personagens são movidos por causas ingênuas e infundadas, como é o caso do soldado, que resolve se transformar biogeneticamente num novo hulk. Outro exemplo é o professor de uma universidade americana, que, inicialmente, se mostra disposto ajudar o herói Bruce com os efeitos deletérios de sua mutação genética, e depois, contraditoriamente, muito naturalmente parece fazer o tipo “cientista maluco”, não vendo nenhum problema ético com manipulação genética e criando um monstro ainda pior.

Sente-se certa identificação com o protagonista, ao percebê-lo na condição solitária por ter que carregar um fardo. Nota-se a fórmula: explorando os sentimentos de heróis, propagando uma universalidade humana, que se garante o sucesso de filmes como este, tão claramente marcado pela lógica e cultura estadunidenses.

O português e modo de ser brasileiros foram pessimamente retratados no longa, como se é de esperar, na verdade: blockbusters têm pouquíssimo fundamento histórico e antropológico, e não há nenhum interesse que seja diferente. O filme não vem dar uma aula de história, mas vem despertar emoções, tão diretamente ligados ao nosso jeito ocidental de ser.

O fim sugere a possibilidade de a continuação trazer uma conexão com Homem de Ferro. Quem sabe o próximo me permita rápidos sorrisos, causados pelo que há de tolo e despreocupado em mim.

domingo, 7 de setembro de 2008

K-Pax, o caminho da luz - Iain Softley (2001)

Refletir sobre loucura, sobre nossa condição de terráqueo, para isso, avalio, me serviu esse filme. Prot que chega ao enredo através de uma viagem por feixe de luz, com uma velocidade ainda maior que esta, fala da vida no seu planeta k-Pax e, como se pode esperar, é interpretado como louco.

As sessões de tratamento dele com o psicanalista sucedem-se, e a partir delas, passamos a conhecer mais de nós mesmos (seres da Terra) por essa oposição com a realidade de K-Paz. Este planeta está num nível evolutivo superior, onde os seres parecem já ter se desligado de causas efêmeras, que marca a vida num planeta ‘primitivo’ como a Terra.

Lá, não existem famílias, as pessoas se desprendem de seus pais e são criadas pelo conjunto social; tendo, dessa forma, a chance de receber diversos tipos de educação. Além disso, a reprodução, diferentemente do que conhecemos, não é prazerosa, o que faz que cada indivíduo nasça depois de muita reflexão e pura vontade dos genitores.

Prot, o alienígena, demonstra conhecer bastante astronomia, o que fortalece o convencimento de que ele é um viajante do espaço. O relacionamento dele com os outros doentes do hospital psiquiátrico é corrente e marcado pela confiança destes no que ele diz, diferentemente do corpo médico. Há momentos, no entanto, que o “louco k-paxiano” inverte a lógica e é interpretado como sábio, alguém que tem algo a dizer e ensinar, como é o caso a visita a um centro astronômico, onde ele descreve perfeitamente a órbita de seu planeta.

O psicanalista, embora incerto se devesse acreditar ou não nele, permanece com os métodos de tratamento garantidos pela ciência. O paciente o instiga, inegavelmente. Ao recorrer à hipnose, e isso é uma das qualidades do filme, a meu ver, por bem retratar essa ferramenta da psicanálise, descobre a “verdadeira identidade” do extraterrestre Prot.

O habitante do espaço havia sofrido um trauma. Desses, incuráveis. E sua mente, então, para sobreviver, havia inventado uma nova maneira de ser. Uma forma distante dos humanos, em que as vontades e os medos terráqueos passaram a ser pequenos, como são talvez.

O doutor tenta mostrá-lo sua real identidade, pede-o para, pelo menos, considerar a possibilidade de estar errado. Prot declara, provocando reflexão: “Eu considero a possibilidade de ser um humano comum, se você considerar a possibilidade de eu ser de K-Pax”. O doutor cale-se, pergunta-se.

Nós estamos inegavelmente dando constantemente sentidos a nossa vida. Sentidos nossos, que podem, muitas vezes, não corresponderem ao que é tido como normal, saudável mentalmente. Pessoas que admitem isso são as loucas do mundo. E como elas têm muito a dizer de interessante, ou mais que isso, de pertinente. Prot deixa sua mensagem também, e assim a entendi: perceber a vida com a perspectiva da eternidade é uma virtude, e nos faz querer fazer o bem e buscá-lo, esquecendo-se dos interesses imediatos, ou de qualquer um.

K-PAX é o nome de um filme de ficção científica, lançado em 2001. Foi dirigido por Ian Softley e interpretado por Kevin Spacey e Jeff Bridges, entre outros. Foi criado a partir do livro com o mesmo nome, escrito por Gene Brewer. O livro em questão é parte de uma trilogia.

sábado, 6 de setembro de 2008

Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá - Silvio Tendler (2007)

"É preciso explicar por que o mundo de hoje, que é horrível, é apenas um momento do longo desenvolvimento histórico e que a esperança sempre foi uma das forças dominantes das revoluções e insurreições, e eu ainda sinto a esperança como minha concepção de futuro" 1963

O documentário inicia-se com uma demonstração de esperança de Sartre diante da injustiça e desigualdade, publicada no prefácio do livro Condenados da Terra, de Franz Fanon. Inegavelmente, do começo ao fim, o filme me fez refletir e tomar notas constantemente sobre as idéias lançadas, que são de uma pertinência nítida e que muito ajudam a esclarecer a realidade em que estamos inseridos.

"O consumo hoje que é o grande fundamentalismo”. São valores introjetados tão esmagadoramente em nossa mente, como o consumismo, que correm o risco de não serem questionados. Milton fala sobre sua condição de intelectual, este ser mesmo que não pode se abster de refletir criticamente, e de como é difícil o ser, no Brasil, pela pouca vontade das pessoas, em geral, em ouvir uma palavra crítica sobre o mundo.

O dado fala por si: 500 mais ricos detêm mais riqueza que os 416 milhões mais pobres. Diante disso, Milton Santos configura a existência de três mundos: o mundo como nos fazem ver - a globalização como fábula; o mundo tal como é - a globalização como perversidade; e o mundo como pode ser - uma outra globalização, o mundo da dignidade humana.

O Consenso de Washington entra como comprovação da perversidade do “globalitarismo” - a globalização estabelecida pelo autoritarismo - ao propor uma bula de como se chegar ao desenvolvimento, (austeridade fiscal, aumento de impostos, juros altos para atrair investimentos estrangeiros, privatizações, defesa da capacidade dos setores privados em oposição à ineficiência dos públicos) que trata unicamente da crise financeira em detrimento da situação social e cultural de um país.

Vários exemplos de manifestação popular na América Latina são citados, deixando evidente o completo fiasco que foi esse programa:

  • Quito, Equador, 2000. Numa população de 95% de índios e mestiços, o movimento popular revolta-se e derruba o presidente.
  • Cochabamba, Bolívia, 2000. Uma população de 70% de índios e mestiços revolta-se contra a privatização da água feita pelo presidente pressionado pelo FMI e Banco Mundial para defender os interesses da multinacional Bechtel. Ressalta-se Oscar Oliveira - líder sindical boliviano.
  • La Paz, Bolívia. 2003. Luta pela nacionalização do gás e petróleo.
  • Buenos Aires, Argentina. 2001. Panelaço do povo derrubou três presidentes em duas semanas. A classe média sofre com a desvalorização da moeda.
  • Brasil, 1997. Privatização de grandes empresas, como a Vale do Rio Doce. Manifestações populares foram dissolvidas.

Embora haja um mito positivo sobre globalização de culturas, o nascimento de crenças e vontades globais, é um equívoco pensar que o Estado nacional, este que representa os interesses particulares de uma nação, perdeu sua relevância. É inegável que os Estados Unidos permanecem sólidos na defesa de sua visão de mundo e de seus interesses internacionalmente. Preciso que se diga também que este processo de mundialização também é eficiente em criar fronteiras, quando é conveniente; como são os casos da fronteira dos EUA-México e Melita, um território espanhol em continente africano cercado por muralhas.

A globalização aflorou a divisão internacional do trabalho, aproveitando-se de possíveis facilidades de exploração de mão de obra em países pobres, contribuiu para o fortalecimento das desigualdades. Mostram-se cenas do filme Corporação, que é uma boa referencia no entendimento de como as grandes empresas se comportam a fim de obter lucro.

Achei bem-adequada a divisão elaborada por Josué de Castro em Geopolítica da Fome, de 1961, que apropriadamente se liga a temática do documentário: a população mundial classifica-se em dois grupos - os que não comem e os que não dormem, com receio dos que não comem.

Questões de necessidade primeiras são encaradas como forma de trazer lucros a corporações empresariais. No 3° Fórum Mundial da Água, que se realizou em 2003, em Kioto, Japão, havia na pauta a privatização da água, que foi veementemente defendida por Peter Woicke, diretor administrativo do Banco Mundial na época. Indispensável destacar que 1,5 bilhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia e não têm acesso à água. Mais de 3 bilhões utilizam água sem tratamento e, devido a isso, estima-se que 30 mil seres humanos morram diariamente no mundo. Sobre esse tema, ver o filme Thirst de Alan Snitow e Deborah Kaufmann.

Saramargo, prêmio Nobel de literatura, alerta sobre a necessidade de se discutir democracia mundialmente. Expõe que democracia, para nós, é o povo ser chamado a comparecer nas urnas e que espaços onde realmente são decididos questões de interesse geral e de plena relevância são completamente antidemocráticos: Banco Mundial, FMI, OIT - organização internacional do trabalho, e outros organismos internacionais.

É antidemocrático também o espaço de disseminação de informação oficial: “6 empresas controlam 90% do mercado de mídia do mundo”. Sendo assim, é preciso que se expandam maneiras populares de fazer mídia, que garantam um novo olhar sobre os fatos. O filme ilustra bem como isso já vem acontecendo e, felizmente, Milton Santos acredita ter a tendência a avançar cada vez mais:

  • Carlos Pronzato - poeta e cineasta argentino, acompanha de perto os movimentos sociais na América Latina. Bakunin Digital.
  • Aline Sasahara - cineasta, acompanha a realidade do MST. Inclusive pôde participar da Marcha Nacional do MST de Goiânia/ Brasília em 2005.
  • Adirley Queiroz. Diretor do filme O canto da Ceilândia
  • Joaquim Yawanawá. Cineasta e líder indígena.
  • Tony Venturi e Pablo Georgieff - diretores do filme Dia de Festa.

A antropologia moderna retrata a existência do Homo Davos (local onde geralmente ocorre o Fórum Econômico Mundial) que apregoou o fim da história e propõe fundos para acabar com a pobreza, desconsiderando inúmeros fatores macro-estruturais que estão completamente associados à desigualdade no mundo. Segundo Milton Santos, necessário, ou melhor, essencial é que se mude o foco das discussões de crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico (...) para o que significa ser civilizado, o que é, de fato, civilização. Viemos ensaiando modelos de humanidade, mas esta em si realmente nunca existiu. Ser pessimistas ante o que está configurado atualmente é inevitável, entretanto isso não apaga a confiança no futuro próximo, em que as revoluções se darão, de baixo para cima, fatais.