sábado, 8 de novembro de 2008

Germinal - Claude Berri (1993)

Na mina Voreux, Étienne Lantier está em busca de emprego e aborda Bonnemort sobre a existência de vagas. O senhor é apelidado de boa morte por ter escapado de várias situações de extremo perigo. É membro da família na qual a narrativa irá se centrar e encontra-se com a saúde debilitada, por ter dedicado sua vida à exaustiva tarefa de extração de carvão.

Somos informados, com essa conversa, que as fábricas na região se multiplicam, enquanto fecham as oficinas. Os mineradores são continuadamente ameaçados pelo perigo de desemprego e de redução de salário e desconhecem o proprietário do lugar onde trabalham, o que certamente dificulta a articulação dos mesmos na luta organizada.

Ainda escuro, Catherine prepara-se para o dia de ofício. Ela é uma dos sete filhos de Toussaint e Maheude e, assim como seus irmãos, trabalha na mina Voreux para contribuir em casa. O café da manhã deles é composto de sobras da refeição anterior. A preocupação dos genitores se faz presente em seu diálogo: as dívidas se amontoam; o dinheiro proveniente dos salários é insuficiente; é preciso comer. “Não preciso ver a cor dos meus pensamentos”, diz a mãe Maheude, ao se apagarem as velas. O que angustia, assim como a vários trabalhadores, é a sobrevivência.

Em Voreux, quando a família Maheu se prepara para o início das atividades, o falecimento de uma operária é comunicado. É a necessidade de substituí-la que movimenta a cena, e isso é feito com a contratação de Étienne. Mulheres e homens enfrentam as mesmas condições de trabalho: insegurança, exaustão física, higiene precária, falta de proteção à saúde. Têm uma cota de vagonetes a cumprir e, por isso, não podem desperdiçar tempo fazendo os escoramentos das paredes rachadas. Há, conseqüentemente, o risco constante de desabamento.

Catherine e Étienne compartilham um almoço. É um entre raros momentos descontraídos do longa-metragem, embora ainda nos confira uma forte sensação de miséria. Em contraste, conhecemos o início do dia da família burguesa. O café da manhã é variado, apetitoso. Não se precisa acordar cedo; as pessoas sorriem. As crianças se dedicam ao estudo da música. Esse clima ameno só é interrompido com a solicitação de ajuda de Maheude, acompanhada de dois filhos. Fica marcado, a partir de então, a hipocrisia e o egocentrismo dos abastados ao subentendidamente culpá-la por sua situação, evidenciando a importância de se poupar, não desperdiçar com bebida e controlar a natalidade. No fim, a jovem Cécile oferece um pedaço de bolo que inegavelmente nos remete ao mesmo que se faz com um cachorro.

Também na mercearia, a mãe nada consegue, mesmo apelando à misericórdia do proprietário. Este sugere que Maheude prostitua a filha para obter seu objetivo. A prostituição feminina é bastante evidenciada nessa obra; é o que observamos no relacionamento que Catherine desenvolve com Chaval, que claramente só acontece devido à precisão desta.

O diretor visita à mina. Maheu é condenado por mau escoramento e é comunicado da decisão da companhia de diminuir o preço do valor recebido por vagonete e pagar o escoramento à parte. O argumento para isso é que a empresa que perde com os desabamentos, por ter que pagar pensões. Toussaint, absurdamente, é multado por escoramento ruim. A revolta entre os trabalhadores se mostra crescente.

No bar, confrontam-se visões anarquistas e marxistas do conflito patrão-empregado. Étienne declara ser crente na força do operário unido como fonte de mudanças. Propõe-se a criação de uma caixa de resistência – uma reserva monetária – para que a paralisação possa ocorrer, caso a companhia insista na nova proposta de pagamento.

Ocorre uma festa. Nela, Étienne convence seus companheiros a contribuir com a caixa. Também se consolida o casamento do irmão de Catherine, Zacharie. Interessante perceber que a união matrimonial entre os dois membros da classe afortunada – Cécile e Négrel – é totalmente distinta desta, uma vez que é corrompida pelo interesse, a falácia, a traição. O dinheiro degenera as relações, não garante a felicidade.

Desaba-se uma parte da mina. Um filho de Maheu é ferido. Num momento de profundo pesar do pai, chega o diretor, aos gritos, afirmando que a companhia quem realmente perde com os acidentes. Toussaint Maheu está completamente decidido pela greve. No dia do pagamento, acompanhando a insatisfação dos companheiros, ele e Étienne os convocam a uma paralisação.

No outro dia, no almoço, os proprietários da mina analisam a fatalidade da revolta operária: a América cessou o pedido de ferro, o que prejudicou as fábricas. Estas passaram a comprar menos carvão. A concorrência obrigou-os a baixar os preços, o que motivou a um aumento de produção, como também a abaixar os custos (os salários). Os trabalhadores sofrem, já que a companhia não diminui seu lucro.

Uma delegação do comando de greve é enviada para negociar. O que recebem como resposta é uma repreensão por se envolverem politicamente e um pedido para que entendam a situação difícil que a empresa enfrenta. A frase de Étienne pertinentemente soa: “Querem que aceitemos a situação e comem brioches todo dia. Algum dia, haverá pão para todos”.

Um mês depois, nenhuma conquista é feita. Na mina Jean-Bart, Catherine e Chaval ainda trabalham. Na assembléia, os mineiros da Voreux decidem-se pela intervenção onde o trabalho permanece.

Chaval organiza um motim na Jean-Bart; abandona, contudo, o interesse comum ao ser seduzido por uma proposta de promoção e retoma as atividades. Acontece, então, uma manifestação ativa dos mineradores que buscam o fortalecimento do movimento grevista. Depredam, pois, a mina e agridem os operários que permaneceram em ofício. Tomados pela energia, atacam a mercearia, matando violentamente o Maigrat, seu proprietário. A chegada da polícia dissipa a revolta. Étienne torna-se fugitivo.

A greve se alonga. Uma filha da família Maheu morre, a fome é insustentável. A burguesia se mostra irredutível e disposta a trazer estrangeiros para ocupar o lugar dos revoltosos. No dia marcado para isso ocorrer, os grevistas, numa demonstração pura de coragem e determinação, enfrentam o exército que fazia a proteção da mina. Toussaint Maheu é mortalmente atingido. Após essa tragédia, a paralisação enfraquece substancialmente.

Catherine, depois de ser expulsa da casa de Chaval, por ter protegido Étienne, se disponibiliza a voltar com seu emprego. E o faz, apesar de ser energicamente repreendida por sua mãe, acompanhada por Étienne. Na mina, uma inundação provocada ameaça a vida dos operários. Nesse contexto desesperador, Chaval e Étienne se agridem pelo amor de Catherine, o que culmina na morte do primeiro. A desesperança de sobreviver acaba unindo Catherine e Étienne, que confessam o que sentem.

Tragicamente, a família Maheu perde mais dois membros: Catherine, que não resiste à noite na mina, e Zacharie, que é carbonizado em um acidente. A caridade tardia da família burguesa é recebida com o assassinato de Cécile por Bonnemort, que enlouqueceu. Étienne sobrevive e resolve mudar-se. Não há ressentimentos ou rancores no seu peito, ele sentia que amadurecia sua compreensão do mundo: “Um exército negro, vingador, que germinava lentamente, crescendo para as colheitas do século futuro, e cuja germinação logo faria rebentar a Terra”.

ESTÉTICA

Cores:
O ambiente compartilhado pelos mineradores se apresenta, no geral, tomado pela escuridão, o que assegura um mal-estar ao espectador, assim como uma sensação de falta de higiene e miséria. A exceção ocorre em dois momentos: na manifestação do movimento grevista e na festa. Nesta última, fica bem perceptível a limpeza do vestuário e do corpo dos personagens.

Quando se trata da classe burguesa, o ambiente é iluminado, marcado por tons fortes. O jogo de cores é uma componente importante da obra, já que serve satisfatoriamente para evidenciar a discrepância de condições dos proprietários, luxo e opulência, e a dos trabalhadores, pobreza e exploração.

Figurino:
A roupa de Étienne tem tom vivo, diferentemente do resto dos operários, que apresentam vestuário em cores neutras, desgastadas. Isso se deve ao papel que ele exerce de instigar e movimentar seus companheiros. Também a classe abastada tem roupas bem-iluminadas, consideravelmente detalhadas e pomposas.

Trilha sonora:
A música acompanha momentos críticos e marcantes do filme. Os encontros de Étienne e Catherine são sempre assinalados com uma melodia tênue, melancólica, fortalecendo a existência de um sentimento oculto entre eles.

Na passeata, em que os mineiros se manifestam energicamente em favor de sua causa, a música provoca mais euforia e animação à cena. Na festa dos mineradores também é utilizada um ritmo forte e descontraído.

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